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Este texto não foi escrito por uma Inteligência Artificial

Mas eu sei que é a minoria do que é escrito por aí nesta vasta Internet. Então vamos falar um pouco sobre este fenômeno.

Não se fala em outra coisa neste ano do Senhor de dois mil e vinte e quatro que não seja Inteligência Artificial. Entre os medos de que se torne senciente e aniquile a humanidade ao de que sirva ao propósito de meia dúzia de bilionários que acha complicada essa história de pagar salários a trabalhadores, seguimos aqui encantados com a sua capacidade de gerar textos mal escritos, alucinar e gerar imagens sempre muito intrigantes de mãos humanas. E é claro que passou pela minha e pela sua cabeça que ela pudesse resolver toda a sorte de conteúdo para gerar nesses tempos em que precisamos nos exibir nas redes para existir, mas que dá uma preguiça danada para criar, não é?

O problema é que fica um pouco na cara demais que você usou a Inteligência Artificial se você não toma alguns cuidados. O primeiro deles é certificar-se que apenas copiou o colou o texto desejado, sem o botão “Regenerate response”. Mas não é só este o cuidado que você deveria tomar, é claro.

Experimentou, por exemplo, ler o que diabos a Inteligência Artificial escreveu para você? Pois deveria. Ainda mais se você escreve um comando (ou prompt para os íntimos) pouco específico, como “crie um texto sobre as dores e as delícias da profissão para publicação no Linkedin”. Aqui me inspirei em famoso momento da política brasileira – um debate com candidatos à Prefeitura de São Paulo com riquíssimos personagens, no exato momento em que o já ex-presidente Collor perguntaria ao folclórico Enéas, mas percebe a insignificância de ambas as candidaturas àquele pleito e pede que o adversário fale qualquer coisa – e então pedi a uma delas para escrever um texto aleatório. Sem nenhum detalhe a mais.

A parte intrigante não foi o gênero escolhido (fantasia), tampouco a estrutura rudimentar de uma jornada do herói ou os parágrafos de pouca qualidade. Quero destacar que a Inteligência Artificial – talvez já treinada para a baixa capacidade de interpretação de textos pelo internauta médio – consolidou ao fim o que eu precisava absorver sobre as linhas porcas anteriores:

Moral da história:

  • A bravura e a determinação podem superar qualquer obstáculo.
  • A bondade e a justiça sempre triunfam sobre o mal.
  • Os sonhos mais loucos podem se tornar realidade se você acreditar em si mesmo.

Uma Inteligência Artificial dessas das mais populares, 2024.

Mas por trás desta boa vontade toda com quem poderia ter dificuldades de interpretar um texto bem raso, não posso deixar de constatar que tal recurso é também uma forma de ludibriar a humanidade a justamente não ler o restante do que foi escrito. Para continuar parecendo uma ferramenta indispensável para a escrita e movimentando assim o mercado financeiro, esse dinheiro louco que está indo para tudo o que promete ter Inteligência Artificial, mesmo que não tenha. Há na criação de um bloco sobre a moral da história também um recurso literário que nos remete à infância, e de repente fantasiando sobre este tempo mágico, imaginamos que o texto escrito não pode ser pior do que os livros infantis que lemos no passado.

Menina interagindo com um robô com feições simpáticas. A menina está olhando diretamente para a câmera, no caso, você.
“Você quer visitar este mundo de fantasias, minha jovem?”

Só que o texto é, sim, pior. Eu li Flicts e Menino Maluquinho com seis anos de idade, Ziraldo não colocou moral da história em lugar nenhum ali, e os livros continuam sendo sublimes até hoje. Ainda há gente escrevendo também. E escrevendo bem, muito bem. São livros, artigos ou mesmo notas que inspiram, intrigam, informam, formam ou mesmo arrancam risadas porque foram concebidas para tanto.

Mas em um mundo onde tudo virou conteúdo, e conteúdo vai ser criado por robôs para que robôs registrem tais textos em buscas para gerar um tráfego aos websites do mundo, em que robôs já representam quase a metade do volume de visitantes, não dá para ficar espantado com a qualidade do calhamaço gerado para não ser lido por ninguém. Ninguém vai avaliar de fato, no máximo vai dar um like ou xingar o autor nas respostas, o que de qualquer forma é engajamento e vida que segue. Quem usou a Inteligência Artificial como seu ghost writer é muitas vezes alguém que simplesmente se vê obrigado a compartilhar algo para continuar a ser notado, para continuar a ter clientes, para continuar a sobreviver em um mundo onde tudo virou conteúdo e sua meia dúzia de bilionários acha complicada essa história de pagar salários a trabalhadores.

Só nos resta a paz de saber que o máximo que esta Inteligência Artificial vai fazer ao se tornar senciente é tornar-se mais um influenciador digital. Pela qualidade do que escreve, um dos grandes!

Foto: Possessed Photography e Andy Kelly | Unsplash

Por Luiz Yassuda

Autor deste site. Diariamente comentando os absurdos cotidianos lá no Twitter (@luizyassuda), no Mastodon (@luizyassuda@mastodon.online) e eventualmente nos podcasts O Alvissareiro e Braincast.