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Data Detox

Facebook – a desintoxicação de dados começou aqui

A ideia de minimizar os danos do Facebook na verdade transformou a minha relação com toda e qualquer mídia social.

Depois de textos e mais textos mencionando apenas uma empresa – Google – chegou a hora de darmos um respiro para falar sobre outra: Facebook, assim como outros dois aplicativos muito populares da empresa: Instagram e Whatsapp.

E aqui devo comentar que a minha jornada pela desintoxicação de dados começou pela rede social. Os casos esquisitos – para dizer o mínimo – que envolvem a privacidade de seus usuários aconteceram ao longo da última década inteira, mas após analisarmos com mais cuidados os desdobramentos políticos no mundo após 2016 é que pudemos concluir que estas questões extrapolaram o âmbito do desrespeito aos usuários para tornarem-se verdadeiras ameaças a minorias e democracias.

Em 2018, após as revelações de diversas práticas controversas nas eleições de 2016 nos Estados Unidos que envolveram a manipulação de dados do Facebook pela empresa Cambridge Analytica, eu achei que era uma boa hora para enfim executar o que já vinha ensaiando meses antes: apagar a conta tanto de Facebook quanto de Instagram, e refazer as contas de uma série de serviços que eu erroneamente havia associado a conta do Facebook ao cadastro.

Tudo devidamente apagado, eu acompanharia ainda no mesmo ano a avalanche que colocava em marcha à ré o combalido processo civilizatório no Brasil com um festival de notícias inventadas em nossa própria experiência de milícias digitais – que contaram, quando não com a ajuda, com a omissão das gigantes de tecnologia em agir rapidamente contra o problema.

Ah! Mas o trabalho acabou me obrigando a ter novamente uma conta de Facebook pouco tempo depois. Porque eu não posso nadar completamente contra a corrente aqui: mais da metade do investimento global em mídia digital destina-se a Google e Facebook. E a partir desta volta e de um breve retorno ao Instagram (que foi apenas um surto durante a pandemia, já passou) comecei a tentar desenhar também uma relação de minimização de danos no uso de serviços da empresa. Ainda que eu eliminasse completamente Facebook e Instagram de minha vida, ainda teríamos o WhatsApp – um meio de comunicação sem o qual hoje eu não conseguiria falar sequer com os meus pais.

Esta ideia de minimizar os danos dos serviços ligados ao Zuckita da Galera na verdade transformou – e aí sim eu diria que de maneira definitiva – a minha relação com toda e qualquer mídia social. De modo que os cuidados que serão descritos a partir deste texto nesta espécie de novo capítulo também se adaptam a outras tantas redes sociais para os mais variados fins, como Twitter, LinkedIn, TikTok e outras.

Precisamos então voltar ao começo para melhor explicar cada passo da jornada, já que esta foi a porta de entrada para arrumar tudo o que você já leu até aqui e tudo o que ainda vai ler. Vamos lá?

Você apagaria a sua conta do Facebook hoje?

cartaz do tipo lambe-lambe em muro com os dizeres "you've been zucked" (você foi Zuckeado).

Quando decidi apagar de vez o meu perfil no Facebook, alguns poucos já estavam começando a trilhar o mesmo caminho. Mas a grande maioria das pessoas ainda se valia de eventos criados na rede social como convite para festas, reuniões e convescotes. Outra imensa perda foi a agenda de aniversários: não poderia decorar as datas de nascimento das mil e tantas pessoas conectadas a mim. Poderia ter anotado? Sim. Poderia ter exportado o arquivo? Até certo momento, provavelmente. Agora nem isso é mais possível. Sair do Facebook acabou virando o motivo (e uma perfeita desculpa) para todo o tipo de gafe social, como o não comparecimento a eventos de amigos ou a não celebração de aniversários.

Mas e hoje?

Enquanto o uso da rede social já não é mais o mesmo, comecei a perceber mais pessoas vivendo plenamente bem sem esta rede social. É verdade que dois dos três serviços que mais cresceram nos últimos anos pertencem à empresa, mas a rede social Facebook em si, aquela em que você compartilhou tudo, todos os detalhes minuciosos de sua nada mole vida, já não empolga.

Um bom exercício de desintoxicação de dados seria pensar naqueles serviços que não usamos tanto: por que devemos manter uma conta nele? Por que devemos andar com o app dele instalado no celular? Por que não poderíamos apagar definitivamente o app pré-instalado em uma série de celulares Android? – esta última questão está um pouco adiantada.

Se estas questões ainda não o incomodam o suficiente para apagar a sua conta do Facebook (e mudar todo e qualquer login feito através do Facebook Connect, é claro!), mas você está preocupado com o uso desta rede e todas as informações que ele carrega sobre você ou mesmo é obrigado a manter uma conta por motivos profissionais, como eu, podemos ver algumas outras abordagens.

Ah, mas se eu pudesse, apagaria novamente a conta, sem dó.

Enquadrando o Facebook

grafite em muro onde podemos ver Mark Zuckerberg e uma frase supostamente atribuída a ele, que diz "The more of your data I gather, the more I understand what it means to be human" (Quanto mais eu coleto seus dados, mais eu entendo o que significa ser humano)

Minimizar os dados compartilhados com o Facebook passa por alguns passos, e é importante dizer por que cada um deles é tomado e como cada um age. Para melhor entender isto, façamos uma lista de todas as informações que você compartilha com a empresa. E eu não estou inventando: recentes atualizações nos iPhones evidenciaram que as pessoas compartilham muito mais coisas que imaginavam com esta gigante da tecnologia.

Eis o que eu destaco:

  • Tudo o que você voluntariamente compartilhou com a rede social – aqui Instagram incluso: posts, fotos, momentos, locais e eventos visitados, pessoas com quem se relaciona e seu grau de parentesco ou proximidade com elas, mensagens trocadas (mesmo as privadas por Messenger ou mensagem no Instagram, em textos, fotos e áudios), agenda telefônica (se usa o app no celular ou o Whatsapp), seus gostos (tudo o que deu like ou compartilhou, de páginas a conteúdos), tipos de anúncio com os quais mais se relacionou, as datas-chave de sua vida e por aí vai.
  • Tudo o que a sua rede voluntariamente compartilha sobre você nas mesmas redes: basicamente as mesmas informações que incluam dados sobre você – quem tem o seu telefone na agenda telefônica, quem subiu alguma foto com o seu rosto, quem frequenta os mesmos eventos que você ou está sempre próximo…
  • Sua localização, quase o tempo todo, trajetos e outros dados relacionados: não basta você não confirmar eventos e não fazer check-in em locais. O Facebook tem seu próprio sistema de rastreamento de seus usuários baseado nos apps para os telefones. O problema é um pouco mais grave para Androids de algumas fabricantes que já embarcam não apenas o app do Facebook em sua configuração de fábrica, como também outras aplicações escondidas, de sistema, que pouca gente conhece ou já viu. Um adendo: como quase todo telefone celular faz isso hoje em dia e quase todo mundo tem um celular esperto, é claro que é fácil para a empresa saber onde você esteve e com quem você esteve.
  • Sites, apps e basicamente todo o tipo de informação que você consome fora da rede social (e a informação que você compartilha com eles): seja via aqueles botões maravilhosos que permitem curtir um conteúdo com o seu perfil do Facebook, seja com a solução de Analytics que fica no código de um monte de sites e apps, seja porque os apps e jogos permitem (ou obriguem) que você crie um perfil neles utilizando o seu Facebook, ou seja porque você visita todo e qualquer site no mesmo navegador com 4238672986753 abas abertas, sendo uma delas o seu Facebook logado, sim, você está compartilhando estes dados de navegação com a empresa.
  • Informações do seu dispositivo: aqui é sempre um pouco mais invasivo se você utiliza o app em vez da versão no navegador, uma vez que diversas funcionalidades são adicionadas ao app e pedem uma série de permissões ao seu celular para funcionar, tais quais: acesso à câmera, acesso ao microfone, dados pessoais (nome, e-mail, telefone e outros dados registrados no aparelho), seus contatos, outros apps instalados, acesso aos arquivos do aparelho, como a pasta de fotos e vídeos etc. Além das informações básicas como dispositivo, sistema operacional, navegador, IP e tudo mais o que já comentamos em outros textos.
  • Novas regras para o WhatsApp: o WhatsApp vivia regularmente mais apartado na festa, uma vez que correu para criar uma solução de criptografia ponta-a-ponta que, em tese, não permite à empresa saber o que as pessoas trocam entre si de mensagens. Visando melhorar a entrega às empresas que passam a atender consumidores com chatbots e SAC, agora há sim um compartilhamento das interações feitas com contas empresariais. Além disso, o teor das mensagens pode continuar sendo um segredo, mas o fato de você conversar com determinados números com frequência pode sempre ajudar a aferir quem são seus contatos mais próximos.

Dito isto, passaremos a explorar nos próximos textos diferentes abordagens para diminuir esta coleta. Se você já leu os textos anteriores sobre o Google, sabe que isto passará por isolar o uso de Facebook a um perfil de uso, talvez seu próprio navegador, ou mesmo avançar em cuidados que exploraremos também quando falarmos especificamente de smartphones.

Fotos: Pixabay, Annie Spratt no Unsplash e Snowscat no Unsplash.

Por Luiz Yassuda

Autor deste site. Diariamente comentando os absurdos cotidianos lá no Twitter (@luizyassuda) e eventualmente nos podcasts Mupoca e Braincast.